terça-feira, 10 de outubro de 2017

A revolução será feminista ou não será! Futebol feminino é questão de poder!


Proponho aqui um exercício imaginativo: como estariam os noticiários esportivos, os jornais, os bate-bola, as rodas de conversa caso o Tite fosse demitido e em seguida diversos jogadores da seleção brasileira, contrários a decisão da CBF, anunciassem que não mais atuariam pela seleção como forma de protesto a autoritária decisão?

Realmente essa é uma cena difícil de se vislumbrar. Mas não é preciso exercícios de futurologia para deduzir a quantidade de notícias que estariam circulando pelas redes sociais, programas esportivos e rodas de conversa do cotidiano. E o apoio e apelo popular, é possível imaginar também?
Emily Lima

Há cerca duas semanas a treinadora da seleção feminina de futebol Emily Lima foi demitida após reunião com o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) Marco Polo de Nero. Emily foi a primeira mulher a treinar a seleção brasileira e também a primeira a ser afastada em tão pouco tempo de atuação, cerca de 10 meses. 

Após o anuncio de sua saída, ficou acertado que Oswaldo Alvarez, o Vadão, ex-técnico da seleção feminina que saiu em novembro de 2016 sem nenhum resultado expressivo, voltaria a ocupar o cargo. A notícia gerou revolta e protesto por parte das jogadoras, não apenas por defenderem a atuação da Emily, mas por denunciarem a falta de diálogo e ao péssimo tratamento em que as atletas estão submetidas.
Cristiane "Tentei de coração, mas eu não tenho mais forças".

Começou com a atacante Cristiane, maior artilheira de futebol em jogos Olímpicos com 14 gols, o anúncio que deixaria de jogar pela seleção brasileira. No dia seguinte, Francielli e Rosana, respectivas meia e lateral da seleção também pronunciaram sua saída. Fran foi enfática:

“todas as atletas estavam satisfeitas com o trabalho mesmo com os resultados negativos. Chegamos a solicitar a permanência dela e da comissão, mas não foi suficiente. E também não é só por isso. Também principalmente por quem retornou (...). Não vejo necessidade e não vejo coerência da minha parte fazer um trabalho onde eu não acredito que possa dar certo (...) Eu não tenho nada contra o Vadão simplesmente estou contra a omissão dele em relação à alguns casos e quem decidia todas as coisas, quem fazia tudo era o Fabrício e como foi informado agora, que a comissão toda está voltando dificilmente eu acredito que vá mudar alguma coisa (...) É muito triste, me sinto triste depois de 12 anos servindo a Seleção Brasileira, desde as categorias de base até a principal, tomar essa decisão.“ (Fran, meia do Avaldsnes Idrettslag, da Noruega)

Em seguida a zagueira Andréia Rosa, que atuou na seleção brasileira por 7 anos, também abandona a seleção, elogia a antiga comissão da Emily e faz um apelo: “CBF e Marco Aurélio, pelo amor de Deus, vocês não sabem o que é o futebol feminino, vocês não vestem a camisa. Vocês tem que colocar pessoas que fazem a diferença aí dentro.”

Depois foi a vez da meia e lateral Maurine declarar sua aposentadoria, completando 5 atletas a debandarem a seleção brasileira como forma de protesto político. Os pronunciamentos das jogadoras apontam o constante assédio moral que eram submetidas "cansei de ouvir de diretor que só sobrevivemos por conta de dinheiro do futebol masculino", disse Cristiane ao anunciar sua saída, e indaga "se isso acontece porque não cria um plano para que possamos depender de nós mesmas?". 

A atitude de coragem das jogadoras impulsionou também algumas ex-jogadores, reconhecidas nacional e internacionalmente, como Formiga, Sissi, Márcia Tafarel, Juliana Cabral, dentre outras, a se posicionarem contra a CBF, exigindo mudanças estruturais, desde a falta de liderança de mulheres em cargos e comissões de administração, gerência e deliberação até ao financiamento e apoio a todos os níveis do futebol feminino no país.

Há um consenso quando o assunto é crítica a CBF no que diz respeito a sua cartolagem e estrutura hierárquica, seu estatuto, o calendário do futebol brasileiro, valor dos ingressos dos jogos da seleção e, obviamente, corrupção.

A CBF há anos tem sofrido denúncias: o atual presidente, Marco Polo Del Nero, é investigado pelo FBI em esquemas de corrupção com a FIFA, tanto por recebimento de propina em contratos de marketing da CBF quanto de amistosos da seleção brasileira.  Os ex-presidentes também estão na mira da justiça: Ricardo Teixeira é acusado de 4 crimes de corrupção, entre eles processos de licitação da Copa do Mundo, lavagem de dinheiro e falsificação de documentos públicos e José Maria Marin, cumpre prisão domiciliar em Nova York desde dezembro de 2015 é acusado de fazer parte de uma quadrilha que cobrava propina de empresas de marketing esportivo em troca de contratos de propaganda e transmissão de competições como Copa América, Libertadores e Copa do Brasil. Também responde por fraude financeira e lavagem de dinheiro.

Mas é claro que os setores mais progressistas também vão atrelar a essa gama de críticas a falta de investimento e apoio ao futebol feminino. No geral, muitos bradam “apoio ao futebol feminino” mas na prática pouco se discute em questões objetivas como a criação de um Comitê do Futebol Feminino dentro da CBF, representatividade de mulheres dentro do conselho de administração, campeonatos permanentes nacionais e estaduais.

Não adianta se manifestar pró-futebol feminino sem questionar a estrutura majoritariamente masculina e sem representatividade nos quadros das Federações e da Confederação. Representatividade importa e significa abrir os olhos e escutas para as demandas das mulheres dentro do futebol.

Sobre a saída da Emily:

A justificativa da demissão de Emily por falta de resultados não se sustenta: seu aproveitamento nos jogos foi mais de 55% e todos realizados em amistosos. Foram 5 derrotas em 13 jogos disputados, dentre eles com seleções como a Alemanha e EUA, países referência de estrutura e suporte ao futebol feminino.

Além disso, sua atuação vai além dos resultados: quando assumiu a seleção ao final de 2016, não havia qualquer planejamento para o ano seguinte. Emily organizou o calendário com um planejamento de jogos até 2018. A coordenação técnica não deu qualquer respaldo para a atuação dela e a relação com o Marco Aurélio Cunha, coordenador do futebol feminino da CBF, nunca foi favorável mas de descrédito em relação a seu trabalho atuação.

É um tanto quanto incoerente esse tipo de justificativa quando não temos uma estrutura nacional forte para o futebol feminino: um calendário reduzido, as ofertas de competições são irregulares e não permanentes, sem contar na falta de investimento em categorias de base por parte de quase todos os clubes brasileiros e na disparidade salarial de gênero dentro da própria seleção brasileira.

Por fim, o anúncio da volta de Vadão para treinar a equipe mostra como a decisão não foi pautada unicamente no rendimento e resultados. Qual seu mérito para assumir a seleção novamente? Qual o futebol diferente do que já conhecemos ele tem a oferecer a seleção feminina? Em seus 30 meses de seleção seu aproveitamento foi de 76%, período em que a seleção foi eliminada nas oitavas de final do Mundial e ficou em quarto lugar nas Olimpíadas do Rio em 2016. Após deixar a seleção, ele retornou ao futebol masculino assumindo o Guarani na série A2 do Paulista, sendo eliminado na primeira fase sem conseguir o acesso a série A1 do Estadual.

Isso evidencia como a CBF não possui qualquer plano para o futebol feminino: não foi cogitado sequer outros técnicos atuantes em times da série A do futebol brasileiro para assumir a seleção feminina. A disparidade de importância em relação ao futebol masculino é gritante. 
A decisão de demissão da Emily foi política e expressa o autoritarismo da CBF que se recusou em dialogar e ouvir as jogadoras que insistiram no trabalho dela.

 Marta é o Pelé de Saias”: apenas parem

Marta, ícone e referência do futebol feminino, apesar de se manifestar favorável a manutenção da Emily como treinadora não aderiu aos protestos de suas companheiras afastadas e apelou para que as jogadoras revisassem sua decisão em prol da seleção.

Tal pronunciamento gerou críticas e levou a comparação com os tantos despautérios já pronunciados por Pelé. Não podemos aqui individualizar a crítica em relação a CBF e seus dirigentes na figura da maior jogadora da seleção. É desvincular o debate de seu foco central e atribuir um peso maior em seu posicionamento frente as demais companheiras da equipe.

Mas Marta não é Pelé de saias a começar que ela não precisa de uma referência masculina para validar seus feitos no futebol brasileiro. Eleita cinco vezes a melhor jogadora do mundo e a maior artilheira da história da seleção brasileira (masculina e feminina) com 101 gols, Marta, como todas as mulheres que atuam no futebol feminino, não teve e não tem os mesmos holofotes, o mesmo salário, as mesmas oportunidades de competição e campeonatos que o futebol masculino. Nem ao menos a camisa 10 da seleção brasileira com seu nome existe e é comercializada no mercado. A comparação não se sustenta porque há uma hierarquia e desigualdade estabelecida marcada fortemente pela questão de gênero. São apenas 40 anos de legalidade do futebol feminino, portanto há uma desvantagem cultural e histórica.

Marta, apesar do reconhecimento enquanto a maior jogadora da seleção feminina brasileira, também sofre das mesmas opressões e desigualdades da estrutura autoritária e machista do futebol brasileiro. Atrelar a crítica a ela, além de não estratégico, desvia o foco de uma questão central: o descaso com o futebol feminino por parte das torcidas, dos clubes, das federações e da mídia.

Mais do que apontar o dedo para a Marta porque não voltar os olhos para a falta de posicionamento político por parte dos atletas brasileiros e da própria mídia em relação ao apoio e divulgação do movimento realizado pelas jogadoras da seleção contra a demissão da Emily e em apelo a CBF por reformas em prol da igualdade de gênero?? Há muita luta a ser feita...

Debandada da Seleção: Luta histórica e resistência!

A saída das 5 jogadoras da seleção brasileira, mais que um ato de protesto e coragem é fruto de uma relação perversa a qual as mulheres são submetidas dentro de uma estrutura historicamente machista que desacredita o trabalho das jogadoras. Não por acaso, na carta aberta das veteranas do futebol feminino o primeiro ponto por elas destacado é em relação ao péssimo tratamento e desrespeito para com as líderes e jogadoras.

A falta de apoio e estímulo ao futebol feminino em todos os níveis, embora pareça um assunto "batido" ainda tem muito a ser dito e realizado frente aos poucos avanços ocorridos para mudar essa realidade. A inclusão obrigatória de mulheres dentro do Conselho da FIFA e a obrigatoriedade da manutenção de times femininos por parte de clubes para disputar a Libertadores são algumas das conquistas recentes e ao mesmo tempo tardias.

A CBF precisa compreender a importância da paridade de gênero em seus órgãos legislativos e nas decisões do futebol. Essa falta de mulheres em toda estrutura futebolística – nos gramados, nas comissões técnicas, nos órgãos administrativos, nas diretorias, no jornalismo – repercutem no fracasso do futebol feminino no Brasil hoje: com campeonatos não regulares, na profissionalização tardia das meninas, na ausência de categorias de base, na falta de carteira assinada na maioria dos times femininos, na reprodução de estereótipos de gênero, na falta de representatividade na mídia, na ausência das torcidas organizadas nos campeonatos femininos.

Os recentes acontecimentos foram motivados por tudo isso e é preciso que se leve a sério a aposentadoria forçada de 5 jogadoras de destaque e a carta aberta das veteranas como fruto dessa situação insustentável. A criação de um Comitê de Futebol Feminino dentro da CBF é um importante passo para um gerenciamento e desenvolvimento do futebol feminino adequado em diálogo com as demandas das mulheres. Uma luta histórica foi travada, o silêncio foi rompido mesmo que isso custe caro a carreira das jogadoras. Carreira essa conquistada a base de muito esforço e de pouco apoio dos clubes, do Estado, das torcidas e da mídia. 

É por isso que falar de futebol feminino sem falar de machismo é impensável. Não se combate uma estrutura hierárquica e desigual sem embate. É preciso nomear os fatos e entender as relações que atravessam a história do futebol brasileiro marcados por diferenças de gênero, raça, classe, etnia e sexualidade, senão continuaremos fazendo das diferenças, que são positivas, em desigualdades.

Mais que isso, é preciso não calar nossas vozes, nossos gritos históricos de insubordinação. Modificar esse histórico de desigualdade de gênero é alterar as relações de poder. Alterar as relações de poder é re-discutir privilégios, por isso há tanta resistência e falta de apoio. O futebol feminino existe por luta e resistência e não há transformação sem enfrentamento. 




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